A léguas de distância de Gay Talese 25/01/2012
Nesta semana fui pautada para fazer o perfil de Rodrigo Santoro, que estava no Brasil para divulgar seu novo filme (“Reis e Ratos”). Por problemas de agenda, a entrevista foi desmarcada e a revista acabou desistindo de dar o perfil. Essa história me fez lembrar uma outra, muito parecida, só que com final surpreendente: afinal, o repórter era Gay Talese... A pauta era o perfil de Frank Sinatra. Gay Talese foi até Los Angeles entrevistá-lo, como haviam combinado, mas o astro da música voltou atrás e recusou-se a falar. Sem fazer uma entrevista sequer, Gay Talese conseguiu contar ao leitor a história de Frank Sinatra e descrever em detalhes sua personalidade. O próprio repórter, em texto publicado no Observatório da Imprensa, comenta como fez a apuração: “Quando estava pesquisando para traçar o perfil de Frank Sinatra ("Frank Sinatra está resfriado") descobri que a cooperação – ou a falta dela – por parte da pessoa a ser retratada não importa muito, desde que o escritor possa acompanhar seus movimentos, ainda que à distância. Durante o tempo que passei em Los Angeles, Sinatra não se dispôs a cooperar. Eu cheguei num momento muito ruim para Sinatra, pois ele padecia de um resfriado e de muitos outros incômodos, e não consegui a entrevista que me havia sido prometida. Mesmo assim, pude observá-lo durante as seis semanas que passei fazendo a pesquisa, assistindo a sessões de gravação em estúdio, vendo-o no set de filmagem, nas mesas de jogo de Las Vegas, e testemunhei suas mudanças de humor, sua irritação e desconfiança quando achava que eu estava me aproximando demais, e seu prazer e gentileza quando, cercado de gente de sua confiança, conseguia relaxar. Foi mais proveitoso observá-lo, ouvir as suas conversas, estudar a reação das pessoas à sua volta do que me sentar e conversar com ele, caso tivesse me concedido a entrevista.” Se há um ranking dos perfis clássicos, aqueles atemporais e que merecem ser lidos, “Frank Sinatra está resfriado” (Frank Sinatra Has a Cold), escrito por Gay Talese e publicado na revista Esquire em abril de 1966, ocupa seu topo. Quer conferir? Leia o texto na íntegra aqui. O perfil foi eleito, em 2003, a melhor história já publicada pela Esquire nos 70 anos de existência da revista. Ele pode ser lido, em português, no livro “Fama & Anonimato”, de Gay Talese. Ah, um dia faço o perfil de Santoro. Deixem a estrada ficar um pouco mais longa. Fica aqui a promessa. CommentsLeave a Reply | Patrícia Pereira
Jornalista, adepta do estilo freela de ser, que resolveu se dedicar à escrita de perfis ● Arquivo● Temáticas
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