Fugi para o Brasil - (Leia a versão publicada na revista Capricho)
A colombiana Lluvia Alejandra, 15 anos, chegou ao Brasil em janeiro. Ela teve de escapar de seu país depois que a mãe foi seqüestrada, perseguida e ameaçada de morte por guerrilheiros
"Cheguei ao Brasil de barco, com minha mãe e meus dois irmãos mais novos (de 8 e 3 anos). Antes passamos pelo Equador e pelo Peru, em viagens feitas de ônibus e de navio, até desembarcarmos em Manaus. Nos primeiros dias pegamos catapora, meus irmãos e eu, e tivemos que ficar por um mês e meio na cidade. Depois de recuperados, seguimos viagem para Porto Velho, onde conseguimos doações de duas igrejas para pagar nossa ida a São Paulo, onde vivo hoje. Foram 51 horas de ônibus.
Na Colômbia, morávamos em um Estado dominado por paramilitares. Como minha mãe vendia artesanato, viajava muito para dois Estados vizinhos onde predominava a guerrilha. Por essas idas e vindas, suspeitaram de alguma ligação com os guerrilheiros e ela foi ameaçada de morte. Nos mudamos de Estado, mas aí foi a vez de os guerrilheiros desconfiarem. Acharam que minha mãe fosse informante do governo. Ela foi seqüestrada por 10 dias. Nesse tempo, fiquei em casa com meus dois irmãos mais novos, sem ter qualquer notícia.
Para que fosse libertada, minha mãe teve que aceitar morar com os guerrilheiros. Ela dizia sim a tudo o que eles propunham. Eles deixaram que ela nos buscasse em casa. Tivemos pouco tempo e cada um só pôde levar três mudas de roupa. Deixamos tudo para trás. Moramos por um mês com os guerrilheiros e fugimos para Bogotá, onde nasci e onde ainda moram meus dois irmãos mais velhos (de 19 e 17 anos). Mas fomos descobertos e a perseguição continuou. Tivemos que sair do país.
Quando chegamos a São Paulo, moramos por uns três meses na Casa do Migrante (entidade que dá abrigo a imigrantes e refugiados, mantida por uma congregação religiosa). Por sermos uma família, pudemos ter um quarto só para nós, mas o banheiro e a cozinha eram coletivos. Agora minha mãe conseguiu alugar uma casa, no centro da cidade, e já temos quase tudo. Tivemos que recomeçar a vida do zero.
Sinto falta de meus amigos e de meu namorado, que tive de abandonar sem me despedir ou dar explicações um dia depois de ser pedida em namoro. Nos conhecíamos há um ano, jogávamos no mesmo time de basquete. Nunca havia topado ser namorada dele, apesar da insistência. Um dia decidi aceitar, ele me deu um abraço e um beijo no rosto e não nos vimos mais. No dia seguinte tive que fugir. Chorei muito, acho que por uns três meses e ainda tenho saudade. Nem ele e nem meus amigos sabem onde estou. É uma questão de segurança.
O primeiro beijo de verdade só aconteceu no Brasil. Foi em um jovem italiano que conheci no navio quando já estávamos em Rondônia. Mas só ficamos, eu não gostava dele de verdade. Ainda não fiquei com outros garotos no Brasil, acho difícil me integrar.
Na escola, os alunos não entendem o que falo e preciso ficar repetindo tudo. Nos dois primeiros dias de aula, todos ficavam curiosos e eu não tinha sossego. Primeiro queriam saber tudo de minha vida, depois pediam que eu ficasse traduzindo coisas para o espanhol o tempo inteiro. Eu entendo bem o português, algumas palavras diferentes soam para mim como um espanhol mal falado. Há situações embaraçosas. Um dia, durante a aula, disse "caralho", que no meu país significa "não incomode ou não me perturbe". O professor me repreendeu, dizendo que aquela não era uma palavra para ser dita por meninas. Fiquei vermelha e sem jeito.
A educação aqui é bem diferente. Na Colômbia, eu tinha aulas de manhã e à tarde e eles eram muito rígidos com a aparência, inspecionavam as unhas, o cabelo e os sapatos três vezes por semana. No Brasil, ninguém liga para isso. Vai cada garoto fedorento para a aula!
As conversas também são diferentes. Na Colômbia, desde pequenos falamos sobre sexualidade. É um assunto normal, como esporte. Aqui, sempre que se fala de sexo vira bagunça. A professora vai ensinar sobre o corpo humano e não se consegue falar a sério, fazem piada de tudo.
Acho a escola meio chata. Eu já estava na 9ª série, o que seria o 1º ano do segundo grau aqui. Mas, como não conheço a gramática de português, tive que voltar para a 6ª série. Então em quase todas as aulas eu já sei tudo o que o professor está ensinando.
No convívio, sinto diferença sobretudo com meninos. Na Colômbia, a maioria de meus amigos eram garotos. Aqui não consigo me aproximar deles. Os assuntos são outros. Lá eu conversava sobre esporte, trabalho e sobre as visitas que fazíamos a asilos e orfanatos. Também jogava futebol e basquete com eles. Os meninos daqui não me deixam participar. Dizem que sou mulher e por isso não sei jogar.
Ainda sinto falta da Colômbia - dos amigos, dos esportes que eu fazia e de poder sair sozinha na rua à noite. Mas sei que não posso voltar e estou quase totalmente feliz no Brasil, só não gosto da escola. No futuro, quero estudar Artes Plásticas ou ser estilista. Isso se não conseguir ser jogadora de basquete."
QUADRO / Curiosidades
IDENTIDADE: Na Colômbia, aos 18 anos o jovem pode mudar de nome (não de sobrenome). É quando eles recebem a cédula colombiana, uma espécie de identidade. O nome Lluvia Alejandra foi o escolhido pela adolescente entrevistada nesta matéria. Ela já era conhecida assim entre seus amigos e só esperava a época certa para trocar oficialmente seu nome na identidade.
REFUGIADOS: São pessoas que precisam deixar o país de origem por ter a vida ameaçada por guerras ou perseguições políticas, ideológicas e religiosas. No Brasil, vivem cerca de 3 mil refugiados, segundo o Comitê Nacional para Refugiados (Conare)
ENTENDA O CONFLITO: A Colômbia vive um conflito entre guerrilheiros de esquerda, que dominam parte do território, paramilitares de extrema direita e as Forças Armadas. A situação piora a cada dia com o narcotráfico. Entre os grupos guerrilheiros de esquerda, destacam-se as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o ELN (Exército de Libertação Nacional).