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Vaticano por trás das muralhas -  (Leia a versão publicada na revista Leituras da História)

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Abrigo antiaéreo, Santa Sé e construções não católicas compõem este diferente Estado, entre outras peculiaridades

O menor Estado independente do mundo, o Vaticano, conservou por anos um segredo: um refúgio antiaéreo foi construído em seu território para proteger os habitantes de ataques nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. A notícia veio a tona em março deste ano - quando o jornal "La Repubblica" publicou documentos inéditos do arquivo do serviço secreto alemão que continham uma carta referente ao abrigo - e deixou uma pontinha de curiosidade sobre esse país católico, que não chega a ocupar meio quilômetro quadrado e tem menos de mil habitantes. O que existe por trás das muralhas e como funciona o Vaticano? 

O que diferencia o Vaticano dos outros Estados é o fato de ser um país que existe para ser a sede da Igreja Católica e gira em torno dela. Marcus Levy Bencostta, doutor em História pela USP e professor da Universidade Federal do Paraná, explica que oVaticano é um Estado independente como outro qualquer, "onde todo e qualquer cidadão do mundo pode ter acesso. A entrada independe de nacionalidade ou credo de seus visitantes, os quais podem conhecer suas basílicas, capelas, museus, arquivos e bibliotecas conforme as regras estipuladas pela Santa Sé." 

Pelas imagens mais costumeiras da TV, de multidões ocupando a Praça de São Pedro, o Vaticano costuma ser visto como apenas esta região e os prédios que ficam atrás. Mas é maior. "Ele é composto por um conjunto de edifícios monumentais", diz Bencostta. Alguns ficam dentro do território oficial do Vaticano, que ocupa 0,44 quilômetro quadrado no norte de Roma, outros ficam espalhados por toda a capital italiana e mesmo fora dela, mas com o estatuto de propriedade do Vaticano. 

Posses da igreja

As propriedades do Vaticano foram definidas e oficialmente reconhecidas pelo Tratado de Latrão, o acordo entre a Santa Sé e a Itália, de 11 de fevereiro de 1929, que reconheceu a soberania do Vaticano. Nele foram estabelecidas três categorias para essas posses. A primeira delas se refere à Cidade Vaticana, um Estado livre e sem intervenção alguma da Itália. 

A segunda categoria compreende o palácio de Latrão, que abriga a basílica de São João; a basílica de Santa Maria Maior e o palácio anexo; a basílica de São Pedro e o edifício contíguo; a vila de Castelgandolfo (residência de verão do Papa nas proximidades de Roma); o Colégio de Propaganda Fide; e os palácios da Dataria, da Chancelaria e do Vicariato. 

Na terceira categoria estão a Universidade Gregoriana, o Instituto Bíblico, o Instituto Oriental, o Instituto de Arqueologia cristã e os seminários russo e Lombardo.

Cercado por muralhas e por uma série de edifícios, o pequeno Estado tem 20 pátios, 1.400 salas e é habitado "principalmente por funcionários de diferentes graus de responsabilidade, podendo ser eclesiásticos ou leigos, e soldados da Pontifícia Guarda Suíça, além de seu principal morador, o Papa Bento XVI", diz Bencostta. Ninguém nasceu lá, todos são apenas moradores. A maioria de suas salas são ocupadas pelos chamados Museus do Vaticano, que guardam obras de artistas renascentistas como Rafael, Leonardo Da Vinci, Ticiano, Caravaggio e Bellini. 

A residência do papa fica no complexo de edifícios conhecido como Palácio doVaticano, que tem também museus, bibliotecas e numerosas capelas, entre elas a Capela Sistina (VER QUADRO AO LADO). A entrada principal do Vaticano conduz à praça de São Pedro. 

O país tem seu próprio serviço postal e telefônico, além de jornal, banco, selo, ferrovia, estação de rádio e televisão. Teve também sua própria moeda, a lira vaticana, mas incorporou oficialmente o euro.

Fonte de renda 

É o dinheiro arrecadado nas diversas igrejas católicas do mundo, na forma de donativos, que sustenta a economia do Vaticano. A mesma fonte de renda usada na evangelização e em programas sociais da igreja. Há um canal de donativos específico, conhecido como "Óbolo de São Pedro", por meio do qual o doador pode enviar fundos diretamente para o Vaticano. Outra fonte de renda é o turismo no complexo dos "Museus Vaticanos", onde se encontram bibliotecas e acervos de pintura, escultura e arte sacra. 

O Vaticano é a sede da Igreja Católica Apostólica Romana e seu governante é o papa, que detém todos os poderes – executivo, legislativo e judiciário. O cargo é vitalício e ele é eleito por um colégio de cardeais. Considerado um emissário de Deus e o sucessor de São Pedro, o papa não precisa prestar contas a nenhum órgão da Santa Sé. 

Santa Sé, aliás, é confundida com o próprio Vaticano. Mas há uma diferença. A Santa Sé representa o governo do Vaticano, feito pelo papa e pela Cúria Romana. Já oVaticano representa o território físico do Estado. Ambos estão sujeitos à lei internacional. 

Territórios papais

Mas como surgiu o Vaticano e como a Igreja Católica se organizava antes dele?
A Igreja Católica chegou a possuir um conjunto de territórios, especialmente no centro da Itália, que se manteve como um estado independente de 756 e 1870. O governo era do papa e a capital era Roma. Mas, antes de se chegar a este ponto, em que foram formados os Estados Papais ou Estados da Igreja, o que existia era o "Patrimônio de São Pedro" – doações, de terrenos ou bens imóveis feitas por fiéis e imperadores cristãos à igreja desde que ficou estabelecido que a sede episcopal era Roma. Havia possessões disseminadas por toda a Itália e também fora dela. 

Os papas, embora não fossem inicialmente considerados como chefes de Estado, administravam esses territórios. E esta função acabou por lhes conferir prerrogativas civis e políticas que foram reconhecidas pela Pragmática Sanção de 554 promulgada pelo imperador Justiniano I, como a de possuir uma força militar. Muitos dos papas, oriundos de classes dominantes romanas, chegaram a exercer de forma simultânea o posto na igreja e de mandatário de Roma. Mas os Estados Papais só surgiriam por volta de 756, no pontificado de Estêvão II. 

A partir daí, e durante quase mil anos, os papas passaram a reinar sobre a maioria dos Estados da península Itálica, incluindo a cidade de Roma. Mas com o processo de unificação da Itália, os Estados pontifícios foram sendo absorvidos um a um pelo novo país que surgia. O ápice da perda ocorreu em 20 de setembro de 1870, quando as tropas do rei Vittorio Emmanuel II entraram em Roma e anexaram a cidade. O papa não aceitou a anexação e declarou-se prisioneiro do poder laico (não religioso). 

A independência do Vaticano só veio a ser reconhecida 59 anos depois, em fevereiro de 1929, por meio do Tratado de Latrão (Pactos Lateranenses ), assinado pelo ditador fascista Benito Mussolini e o papa Pio XI. No tratado, a igreja reconheceu a Itália como Estado soberano e renunciou aos territórios que havia possuído na Idade Média.. A Itália reconheceu a soberania da Santa Sé sobre o Vaticano, declarado Estado neutro e inviolável, e  garantiu ao Vaticano o recebimento de uma indenização financeira pelas perdas territoriais da unificação. 

Sendo assim, o Vaticano é o que restou dos Estados Papais, depois de suprimidos os territórios antes pertencentes à igreja com a unificação italiana no século XIX. Uma curiosidade é que o Palácio do Vaticano, mesmo com todas as guerras, é a tradicional residência papal desde 1377. 

E, ainda em tempo, o refúgio antiaéreo, citado na abertura da matéria, ficava dentro do que restou do território vaticano. Ele foi construído junto ao torreão de Nicolás V, que agora abriga a sede do Instituto para as Obras Religiosas (IOR). O abrigo nunca chegou a ser usado. 


QUADRO 1:
Guarda Suíça protege o Vaticano

O menor Estado independente, o Vaticano, tem também o menor exército do mundo: a Guarda Suíça Pontifícia, que conta com 96 soldados. Todos eles são homens, católicos, com idade máxima de 30 anos e fizeram treinamento militar no exército suíço. 

A função primordial da Guarda Suíça é proteger o papa e sua residência. Mas ela também está encarregada de vigiar todo o tesouro artístico de posse do Vaticano e de assistir a todas as cerimônias pontifícias.

No início, a Guarda Suíça era formada por soldados suíços mercenários, que eram contratados para lutar por diferentes países europeus entre os séculos XV e XIX, mas atualmente só serve ao Estado católico. A corporação do Vaticano surgiu em 1506, a pedido do papa Júlio II, que havia solicitado proteção aos nobres suíços em 1503. Vieram para Roma cerca de 150 nobres, considerados os mais corajosos, vindos de Zurique , Uri, Unterwalden e Lucerna. Hoje, é o único grupo de mercenários aceito pela lei suíça. 

Os soldados da Guarda se vestem com um curioso e colorido uniforme. Ele é feito de cetim e tem franjas nas cores azul, amarelo e vermelho. O desenho da farda é atribuído ao pintor renascentista Michelangelo, segundo a lenda. Mas diz-se que o verdadeiro autor é Jules Repond, um antigo comandante da Guarda, que a desenhou em 1914. 


QUADRO 2:
Templos com passado não católico


Nem todas as construções do Vaticano tem uma origem puramente católica. Devido a guerras e incorporações de territórios, locais que foram marcos de cerimônias pagãs ou símbolos de vitórias militares passaram por adaptações e viraram prédios da igreja católica. O exemplo mais expressivo é a Basílica de São Pedro, a maior igreja do mundo, erguida onde antes ficava a Coluna de Trajano. 

"A cidade de Roma, onde se localiza o Vaticano, é um verdadeiro sítio arqueológico que guarda vestígios de diferentes momentos da civilização do ocidente europeu. Ao longo de uma história marcada por guerras territoriais e religiosas, a ação da igreja em construir ou adaptar templos cristãos nos espaços sagrados utilizados anteriormente por outros credos deve ser entendida como estratégia de inculcação de valores culturais e doutrinários. De modo que o fiel, ao enxergar aquele espaço, o identificasse imediatamente com o sistema religioso predominante", explica Marcus Levy Bencostta, doutor em História pela USP e professor da Universidade Federal do Paraná. 

Foi o que aconteceu – mas não oficialmente - com a Basílica de São Pedro. Segundo Bencostta, na memória oficial da igreja católica, a ordem de construção da basílica naquele local tem como referência a morte do apóstolo Pedro, ocorrida ali. Mas há uma outra história importante: A Coluna de Trajano era um monumento incrustado em uma das principais faces da Roma antiga, hoje Vaticano, que foi erguido por ordem do senado romano, entre os anos de 106 a 113, para homenagear as vitórias do imperador Trajano contra os Dácios. No século XVI, em plena Contra-Reforma, a igreja substituiu a estátua alusiva a Trajano, que encimava a coluna, pela estátua de São Pedro. "Posso inferir que a substituição da estátua no topo da coluna significa que a igreja aproveitou toda a simbologia de luta e vitória que representava aquele monumento para anunciar em alto e bom tom que o catolicismo continuaria sendo a ordem que o mundo temporal deveria respeitar, sendo a figura do apóstolo Pedro providencial nessa inculcação", diz Bencostta. 

A Basílica de São Pedro tem capacidade para receber 60 mil pessoas e foi construída entre os séculos XV e XVII por vários arquitetos, como Donato Bramante, Michelangelo e Gian Lorenzo Bernini. Em seu interior tem sepultados todos os papas. Entre os tesouros guardados ali, está a Pietá de Michelangelo, uma das estátuas mais famosas do mundo. 


QUADRO 3:
A Capela Sistina


É no Vaticano que fica a famosa Capela Sistina, cujo teto, com 20 metros de altura, foi pintado por Michelangelo, entre 1508 e 1512. A capela começou a ser construída em 1473. Além dos afrescos de Michelangelo, que representam a narração épica da criação do mundo, a expulsão de Adão e Eva do paraíso e a história de Noé, tem também as paredes laterais decoradas com obras de Perugino e Botticelli. E, por cima do altar, está a representação do Julgamento Final, outra criação de Michelangelo, de 1544. 

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