Diferente, mas nem tanto - (Leia a versão publicada na revista Capricho)
A síndrome de Down não impede Weberton Vítor Ferreira Peluso, 15 anos, de surfar, namorar e tocar samba
"Aprendi a tocar timba (instrumento de percussão) sozinho. Desde criança já brincava. Meu irmão mais velho (de 22 anos) toca pandeiro e a gente sempre se apresenta em rodas de samba, forrós e churrascos. Tem mais uns quatro amigos no grupo. Também gosto de cantar. As músicas preferidas são as do Zeca Pagodinho e do Jorge Aragão. Outro dia fui a um forró no Centro de Convenções Nordestinas e encontrei o Frank Aguiar, almoçamos juntos.
Estudo de manhã, na APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais). Até os seis anos, estudei em um outro colégio, mas não me lembro de quase nada de lá. A única aula que gosto é a de música. Toco timba na escola e faço parte do coral. Não gosto de nenhuma outra matéria. A mais difícil é português. Tenho dificuldade para escrever e estou aprendendo a ler.
Preciso acordar muito cedo, mas não me importo. Adoro a escola. Nunca peço para matar aulas. Minha mãe me leva e me busca todos os dias. Pegamos dois ônibus e um metrô, demora bastante, quase uma hora e meia.
Depois da aula, fico na rua com os meus amigos. Ando de bicicleta pelo bairro todo, jogo bola. Sou goleiro, como o Rogério. Eu torço para o São Paulo. Também levo meus amigos todos os dias lá em casa para jogar vídeo game. Minha mãe briga muito, mas eu nem ligo. Meus jogos preferidos são os de futebol e os de luta.
Às vezes vou à academia com o meu irmão, malhar para ficar forte. Levanto muito peso. Sou muito amigo de meu irmão. Eu o adoro. Sempre dividimos o mesmo quarto e nunca deu nenhuma briga.
Nos últimos dias, o que me fez mais feliz foi o nascimento de minhas sobrinhas. É, agora sou titio. E vieram logo duas. Elas são gêmeas e lindas. Se chamam Laís e Larissa. Quero fazer tudo: dar banho, trocar a fralda. Mas só me deixam pegá-las no colo porque são muito pequenininhas ainda. Elas não têm nem um mês. E quando começam a chorar, sai de perto. Aí não dá para ouvir a televisão e nem dormir.
Na TV, gosto de assistir às novelas. Também sou fã do Chaves e do Gugu. Nas férias gosto de ir para a Praia Grande. Ganhei uma prancha de surf nova, enorme e colorida, e estou quase aprendendo a ficar em pé. Foi o meu pai quem me ensinou a pegar onda. Afoguei muito, bebi muita água, mas não tenho medo do mar. Nos finais de semana vou com meu pai a um clube que tem perto da minha casa. Lá eu jogo futebol e fico na piscina. Aprendi a nadar na APAE.
Também foi na APAE que conheci minha namorada. Ela estuda na minha sala e é muito bonita. Ainda não demos beijo na boca, só no rosto e ficamos de mão dada. Só que agora estou de férias e vou demorar a vê-la de novo. Ainda não saio à noite. Só com os meus pais. E nada de bebida alcoólica. Só tomo refrigerante.
Pedi de presente no Natal um cavaquinho. Ainda não sei tocar e não conheço ninguém que toque. Vou precisar entrar em uma escola de música para aprender.
Quando eu crescer, quero trabalhar na APAE mesmo ou ser vendedor das Casas Bahia."
QUADROS:
TIMBA: Instrumento de percussão da mesma família do tan tan e do rebolô, muito usado no samba. É tocado com uma das mãos na pele e a outra fazendo o contraponto no corpo do instrumento.
O QUE É SÍNDROME DE DOWN: Síndrome genética que ocorre devido à existência de um cromossomo a mais no par 21. Costuma prejudicar o desenvolvimento físico e mental e, por isso, os portadores dessa síndrome devem ter estimulação precoce e reforço na educação.